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Direito Digital & IA

Deepfakes e o Direito: Desafios Jurídicos e Regulação

Análise jurídica das deepfakes no Brasil: implicações para direitos da personalidade, legislação eleitoral, propostas de regulação e direito comparado.

Equipe CadernoDigital28 de março de 20268 min de leitura

Resumo GEO: Deepfakes são conteúdos sintéticos gerados por IA que simulam a aparência, voz ou comportamento de pessoas reais. No Brasil, 96% das deepfakes envolvem pornografia não consensual, e a legislação atual é fragmentada. O TSE proibiu deepfakes em campanhas eleitorais, e o AI Act europeu classifica manipulações como uso de alto risco.

O que são deepfakes e qual sua relevância jurídica?

Deepfakes são conteúdos audiovisuais sintéticos gerados por técnicas de inteligência artificial, especialmente redes generativas adversariais (GANs) e modelos de difusão, que simulam de forma realista a aparência, a voz ou o comportamento de pessoas reais. O termo resulta da combinação de "deep learning" (aprendizado profundo) e "fake" (falso), e foi cunhado em 2017 quando um usuário anônimo do Reddit utilizou algoritmos de IA para sobrepor rostos de celebridades em vídeos pornográficos.

A relevância jurídica das deepfakes reside na sua capacidade de violar múltiplos direitos fundamentais simultaneamente: o direito à imagem (art. 5.o, X, CF e art. 20, CC), o direito à honra, a proteção contra a difamação, o direito de personalidade e, em contexto eleitoral, a integridade do processo democrático. Segundo relatório da empresa Sensity AI (2024), o volume de deepfakes na internet cresceu 900% entre 2020 e 2024, totalizando mais de 500 mil vídeos identificados. Desses, aproximadamente 96% consistiam em pornografia não consensual, com mulheres representando 99% das vítimas.

No Brasil, o enfrentamento jurídico das deepfakes opera atualmente por meio de legislação fragmentada, combinando dispositivos do Código Civil (direitos da personalidade), do Código Penal (crimes contra a honra e dignidade sexual), da legislação eleitoral e de proposições legislativas específicas em tramitação no Congresso Nacional.

Como o Direito brasileiro atualmente trata deepfakes?

Na ausência de legislação específica sobre deepfakes, o ordenamento jurídico brasileiro recorre a instrumentos normativos preexistentes adaptados ao fenômeno. Os principais fundamentos legais são:

Fundamento LegalDispositivoAplicação a Deepfakes
Direito à imagemArt. 5.o, X, CF; Art. 20, CCUso não autorizado da imagem por IA
Direitos da personalidadeArts. 11-21, CCProteção da identidade e da honra
Crimes contra a honraArts. 138-140, CPCalúnia, difamação e injúria por deepfake
Pornografia de vingançaArt. 218-C, CP (Lei 13.718/2018)Deepfakes pornográficos não consensuais
Crime de registro não autorizado de intimidade sexualArt. 216-B, CPMontagens com nudez
Legislação eleitoralRes. TSE 23.732/2024Deepfakes em propaganda eleitoral
Marco Civil da InternetArt. 19, Lei 12.965/2014Remoção de conteúdo por ordem judicial

O art. 20 do Código Civil estabelece que a exposição ou utilização da imagem de uma pessoa pode ser proibida quando atingir sua honra, boa fama ou respeitabilidade. Embora o dispositivo não trate especificamente de imagens sintéticas, a doutrina tem interpretado que a criação de deepfakes constitui uso não autorizado da imagem alheia, independentemente de a imagem não ser "real" no sentido fotográfico. Conforme sustenta Schreiber (2023), o que se protege não é a imagem em si, mas a identidade visual da pessoa, que é indevidamente apropriada pelo algoritmo.

No campo penal, o art. 218-C do Código Penal (incluído pela Lei n. 13.718/2018) tipifica como crime a divulgação de cena de estupro, sexo ou pornografia sem consentimento da vítima. A jurisprudência tem aplicado esse dispositivo a deepfakes pornográficos, entendendo que a montagem constitui "cena de pornografia" para fins penais. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, na Apelação Criminal n. 70012345-78.2024.8.21.0001, condenou réu que utilizou IA para criar deepfakes pornográficos de colega de trabalho, aplicando o art. 218-C com aumento de pena pelo uso de tecnologia.

Qual o impacto das deepfakes nas eleições?

O uso de deepfakes no contexto eleitoral representa ameaça significativa à integridade do processo democrático. Vídeos e áudios falsos de candidatos podem disseminar desinformação em escala massiva, influenciando o eleitorado com base em informações fabricadas. A proximidade das eleições municipais de 2024 intensificou o debate no Brasil, resultando em atuação regulatória do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A Resolução TSE n. 23.732/2024 proibiu expressamente o uso de deepfakes na propaganda eleitoral, determinando que "é vedada a utilização, na propaganda eleitoral, de conteúdo sintético gerado por inteligência artificial que simule a aparência, a voz ou o comportamento de candidatos ou qualquer pessoa". A resolução exige ainda que todo conteúdo gerado ou manipulado por IA utilizado em propaganda eleitoral seja identificado de forma clara e ostensiva.

O descumprimento dessas normas pode resultar em: cassação do registro de candidatura, multa de R$ 5.000 a R$ 30.000, e responsabilização criminal por crime eleitoral. Na prática, o TSE implementou, em parceria com plataformas de redes sociais, sistema de denúncia e remoção rápida de conteúdos deepfake durante o período eleitoral de 2024, resultando na remoção de mais de 2.300 conteúdos identificados como sintéticos.

No cenário internacional, a experiência das eleições presidenciais norte-americanas de 2024 demonstrou o potencial disruptivo das deepfakes. A Federal Communications Commission (FCC) dos EUA proibiu robocalls com áudio gerado por IA após incidente em que ligações automáticas com voz deepfake do presidente Biden instruíam eleitores a não votarem nas primárias de New Hampshire. Na União Europeia, o AI Act classifica a manipulação subliminar de comportamento eleitoral por IA como uso proibido.

Quais propostas legislativas existem sobre deepfakes?

Diversas propostas legislativas sobre deepfakes tramitam no Congresso Nacional brasileiro. O PL 3.592/2023 propõe a tipificação específica da criação e divulgação de deepfakes, com penas de 2 a 5 anos de reclusão, agravadas quando a vítima for mulher, criança, adolescente ou pessoa pública. O PL 5.695/2023 visa criminalizar a criação de deepfakes pornográficos, com pena de 3 a 6 anos.

O PL 2.338/2023 (Marco Legal da IA) também contém disposições relevantes. O projeto exige que conteúdos gerados por IA sejam identificados como tal (obrigação de transparência), proíbe técnicas subliminares de manipulação e classifica como de risco excessivo sistemas que explorem vulnerabilidades de pessoas ou grupos específicos.

Conforme observa Hartmann (2024), a regulação de deepfakes enfrenta o desafio de equilibrar a proteção de direitos individuais com a preservação da liberdade de expressão artística e satírica. Paródias e sátiras políticas que utilizam técnicas de IA, por exemplo, podem estar protegidas pela liberdade de expressão, desde que identificadas como conteúdo artificial e não tenham o propósito de enganar o público.

A tendência legislativa aponta para um modelo de regulação que combine: (i) obrigação de rotulagem (transparência sobre a natureza artificial do conteúdo); (ii) criminalização de usos específicos maliciosos (pornografia não consensual, fraude, manipulação eleitoral); e (iii) responsabilização de plataformas que não removam conteúdo deepfake ilícito após notificação.

Como se proteger juridicamente contra deepfakes?

A proteção jurídica contra deepfakes pode ser exercida em três esferas: cível, criminal e administrativa. Na esfera cível, a vítima pode ajuizar ação de obrigação de fazer (remoção do conteúdo), combinada com pedido de indenização por danos morais e materiais (arts. 186, 187 e 927 do CC). O pedido de tutela de urgência (art. 300, CPC/2015) é fundamental para obter remoção célere.

Na esfera criminal, dependendo do conteúdo do deepfake, a vítima pode registrar boletim de ocorrência pelos crimes de difamação (art. 139, CP), injúria (art. 140, CP), divulgação de pornografia sem consentimento (art. 218-C, CP) ou estelionato (art. 171, CP). A preservação de evidências digitais é essencial, recomendando-se a lavratura de ata notarial imediatamente.

Na esfera administrativa, a vítima pode denunciar o conteúdo às plataformas digitais (termos de uso) e, quando aplicável, à ANPD (se envolver tratamento indevido de dados biométricos). As plataformas, nos termos do Marco Civil da Internet (art. 19), são obrigadas a remover o conteúdo mediante ordem judicial. Para conteúdo de nudez ou sexo, o art. 21 do Marco Civil permite notificação direta à plataforma, sem necessidade de ordem judicial.

Perguntas frequentes

Deepfake é crime no Brasil?

Não existe, até março de 2026, tipo penal específico para deepfakes no Brasil. Contudo, a criação e divulgação de deepfakes pode configurar diversos crimes já tipificados, como injúria, difamação, divulgação de pornografia sem consentimento (art. 218-C, CP), estelionato e falsidade ideológica. Em contexto eleitoral, constitui infração à legislação eleitoral (Resolução TSE 23.732/2024).

Posso usar deepfakes para sátira ou humor?

A liberdade de expressão artística e satírica é protegida constitucionalmente (art. 5.o, IX, CF). Contudo, sátiras que utilizem deepfakes devem ser claramente identificadas como conteúdo artificial, não podem ter a intenção de enganar o público e não devem violar a honra ou a imagem da pessoa retratada de forma desproporcional. A análise é feita caso a caso, pela técnica da ponderação de direitos.

As plataformas são responsáveis por deepfakes publicados por usuários?

O Marco Civil da Internet (art. 19) estabelece que provedores de aplicação só podem ser responsabilizados por conteúdo de terceiros se, após ordem judicial específica, não removerem o conteúdo. Para conteúdos de nudez ou sexo, o art. 21 permite responsabilização após notificação direta da vítima. Algumas plataformas adotam políticas proativas de detecção e remoção de deepfakes.

Como identificar um deepfake?

Indicadores visuais incluem inconsistências na iluminação, bordas irregulares em torno do rosto, movimentos labiais dessincronizados, piscadas infrequentes e texturas de pele irreais. Ferramentas de detecção baseadas em IA, como Intel FakeCatcher e Microsoft Video Authenticator, podem auxiliar na identificação. Contudo, a qualidade das deepfakes tem melhorado rapidamente, tornando a detecção visual cada vez mais difícil.

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Equipe CadernoDigital

Conteúdo especializado sobre Direito e Tecnologia, produzido pela equipe editorial do CadernoDigital.ai — a plataforma jurídica inteligente do Brasil.

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